
Uma tecnologia desenvolvida para monitorar, em tempo real, os sinais fisiológicos e o comportamento de tamanduás-bandeira permitiu, pela primeira vez, acompanhar toda a gestação de uma fêmea da espécie. O sistema registrou as mudanças ocorridas antes, durante e após a gravidez, produzindo informações inéditas que podem ampliar o conhecimento científico sobre a espécie e aperfeiçoar estratégias de conservação. O tamanduá-bandeira é uma das espécies mais ameaçadas do Cerrado.
O monitoramento foi realizado com Nancy, como foi apelidada a fêmea de tamanduá-bandeira resgatada pelo Projeto TamanduASAS, iniciativa coordenada pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), em Minas Gerais. Após ser reabilitada, ela voltou à natureza monitorada por colar GPS e um monitor cardíaco implantável, que permitiam acompanhar seus deslocamentos e parâmetros fisiológicos remotamente.
Em setembro de 2025, alterações nesses indicadores sinalizaram problemas de saúde, levando à recaptura do animal e ao encaminhamento ao Criadouro Conservacionista da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), em Araxá (MG), para atendimento veterinário especializado. A CBMM é uma empresa brasileira produtora de nióbio que mantém o centro de pesquisa e conservação da fauna do Cerrado na cidade.
Como Nancy não pôde retornar à vida livre, passou a integrar o programa de conservação da instituição. No criadouro, ela foi pareada com um macho chamado Domingos e, em março deste ano, exames confirmaram a gestação. A partir desse momento, os pesquisadores iniciaram o acompanhamento da fêmea por meio de um colete equipado com sensores desenvolvido especialmente para o corpo do tamanduá-bandeira. O filhote nasceu em junho.
“O sistema permite o monitoramento contínuo e em tempo real de parâmetros fisiológicos e comportamentais, sem interferências no comportamento natural do animal”, disse Rafael Ferraz, médico-veterinário da CBMM responsável pelo acompanhamento do animal. Para ele, o principal avanço foi a possibilidade de registrar todas as etapas da gravidez. O acompanhamento da gestação gerou uma base inédita de informações sobre as alterações fisiológicas da espécie durante o período reprodutivo, além de permitir observar sua adaptação ao ambiente e ao processo de reabilitação, e a partir do nascimento do filhote.
Classificado como vulnerável na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, o tamanduá-bandeira enfrenta desafios como a perda de habitat e apresenta baixa taxa reprodutiva, fatores que tornam mais lenta a recuperação de suas populações. Nesse cenário, ferramentas capazes de produzir informações sobre a biologia da espécie são consideradas importantes aliadas das estratégias de conservação.
“O nascimento representa um importante indicador da efetividade das ações de conservação desenvolvidas ao longo de décadas. Mais do que acompanhar um animal, buscamos produzir conhecimento científico que contribua para o aperfeiçoamento das estratégias de conservação e para a preservação de espécies ameaçadas do Cerrado”, afirma Ferraz, médico-veterinário da CBMM.
Por Naiara Bertão, Um Só Planeta — São Paulo
03/08/2026 08h00 Atualizado há 4 dias

















